O barco desliza devagar pelo canal estreito, e o mundo muda de escala. Árvores de raízes aéreas se erguem como colunas de uma catedral verde, e o chão — quando visível entre a lama negra e brilhante — pulsa com caranguejos que desaparecem em buracos no primeiro sinal de perigo. João do Mangue, como é conhecido em Paranaguá, guia o leme com uma mão e aponta com a outra: "Olha ali, naquelas raízes. Viu? Um guaiamum. Dizem que é raro ver de dia."

O Estuário de Paranaguá é o maior e mais preservado complexo lagunar do sul do Brasil. Suas quase quatrocentas ilhas, centenas de canais e vinte e sete mil hectares de manguezal formam um labirinto azul e verde entre o continente paranaense e o oceano. É também um dos sítios Ramsar do país — reconhecimento internacional de sua importância para aves aquáticas e biodiversidade costeira.

A maré como relógio

Tudo no manguezal obedece ao ritmo da maré. Na maré alta, os canais se enchem e peixes nadam entre as raízes em busca de alimento e abrigo. Na maré baixa, a lama exposta revela um universo de crustáceos, moluscos e minhocas que alimentam aves, jacarés e as comunidades humanas que vivem nas margens. "A maré é nosso relógio, nosso calendário, nossa bíblia", diz João, que aprendeu a ler os canais com o pai e o avô, ambos extrativistas do mangue.

A coleta de caranguejo-uçá — espécie abundante e base da economia local — segue regras não escritas transmitidas por gerações. Só se colhe na maré baixa, nunca se pega fêmeas com ovos visíveis, e cada coletor respeita áreas delimitadas por acordos comunitários. "Quando o governo veio com regulamentação, a gente já fazia tudo aquilo há cinquenta anos", comenta João com um sorriso que mistura orgulho e ironia. "Só faltava o papel."

"O manguezal parece imóvel, mas é o ecossistema mais dinâmico que existe. A cada seis horas, ele se transforma completamente. Quem não entende a maré, não entende o mangue."

Raízes que sustentam mundos

Do ponto de vista científico, os manguezais de Paranaguá são um tesouro ainda parcialmente catalogado. Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná identificaram nas últimas duas décadas dezenas de espécies novas para a ciência — desde microalgas até crustáceos — e estimam que o inventário completo pode dobrar o número de espécies conhecidas. O mangue funciona como berçário para peixes de alto valor comercial, como robalo, corvina e pescada, que passam a fase jovem protegidos entre as raízes antes de migrar para o mar aberto.

Dra. Helena Kasper, ecóloga marinha que estuda o estuário há vinte anos, explica que a produtividade biológica do manguezal rivaliza com a de recifes de coral tropicais. "Por metro quadrado, um manguezal pode produzir mais biomassa orgânica que muitos ecossistemas terrestres. As folhas que caem das árvores alimentam uma cadeia inteira — bactérias, fungos, pequenos crustáceos, peixes, aves." Seu trabalho mais recente quantificou o estoque de carbono do estuário: os manguezais de Paranaguá armazenam o equivalente a anos de emissões de veículos da região metropolitana de Curitiba.

Ameaças no horizonte

Mas a preservação relativa do estuário não significa que ele esteja a salvo. O Porto de Paranaguá — o segundo maior exportador de grãos do país — opera a poucos quilômetros dos manguezais, e o tráfego de navios cargueiros de grande porte é constante. Derramamentos de óleo, embora raros, são catastróficos em ambientes tão sensíveis. A dragagem de canais para acomodar embarcações maiores altera a dinâmica sedimentar e pode mudar padrões de salinidade que sustentam comunidades inteiras de organismos.

A pressão imobiliária também avança. Condomínios de veraneio e marinas privadas surgem nas margens do continente, e a especulação terrenas ameaça áreas que deveriam ser invioláveis. Comunidades tradicionais como a de Ilha do Mel — onde não há carros e a eletricidade é limitada — enfrentam o dilema entre o turismo sustentável que sustenta suas famílias e o turismo de massa que pode destruir o que os atrai.

João do Mangue desembarca em uma praia de mangue onde crianças brincam entre as raízes. "Meu medo não é o caranguejo acabar", diz ele, descalço na lama. "Meu medo é meu neto não conhecer isso aqui. Não saber o cheiro do mangue, o gosto do guaiamum, o barulho da maré subindo. Isso sim seria uma perda que nenhum dinheiro paga."

O sol se põe sobre o estuário, tingindo as águas calmas de cobre e ouro. As garças voltam aos poleiros nas árvores, e o manguezal se prepara para a noite — outro ciclo, outra maré, outra respiração nesta floresta que nunca dorme de verdade.