Às cinco da manhã, quando Salvador ainda dorme, Seu Geraldo já está no cais de Ilha de Maré com a rede nos ombros. O céu é uma mistura de rosa e cinza sobre a Baía de Todos os Santos, e o cheiro de água salobra — nem doce, nem salgada — preenche o ar. "Essa água aqui é vida", diz ele, apontando para o canal que separa a ilha do continente. "Meu avô pescava aqui, meu pai pescou, e eu continuo. Mas cada ano a maré traz menos peixe e mais plástico."
A Baía de Todos os Santos é o maior estuário tropical do mundo em extensão: mais de mil quilômetros quadrados de água onde doze rios deságuam no Atlântico. É também um dos estuários mais urbanizados do planeta. Quase quatro milhões de pessoas vivem em suas margens, e a metrópole de Salvador cresceu literalmente sobre seus manguezais. O paradoxo é cruel e fascinante: um ecossistema que deveria ter desaparecido há décadas ainda pulsa com vida — humana e marinha.
A ilha que a cidade esqueceu
Ilha de Maré fica a vinte minutos de barco do centro de Salvador, mas parece pertencer a outro século. Não há asfalto nas ruas principais, a energia elétrica chegou apenas na década de 1990, e a maioria dos moradores depende da pesca artesanal e da agricultura familiar. São cerca de quatro mil habitantes distribuídos em cinco comunidades — Praia Grande, Santana, Pedreira, Porto dos Cavalos e Nova Brasília — cada uma com sua identidade e suas disputas internas.
Marina Santos, bióloga do Instituto Mamíferos Aquáticos, visita a ilha há quinze anos. "Quando comecei a pesquisar golfinhos na baía, meus colegas achavam que eu estava louca", conta ela, enquanto anota dados em uma prancheta molhada. "Diziam que não havia vida aqui, que a poluição tinha acabado com tudo. Estavam errados." Seus levantamentos identificaram mais de duzentas espécies de peixes, tartarugas marinhas que usam a baía como área de alimentação e um grupo residente de cerca de trinta golfinos-guarda que patrulham os canais entre as ilhas.
"A baía está doente, mas não está morta. O problema é que a sociedade trata ela como se já tivesse morrido — como um lugar onde pode despejar esgoto e construir o que quiser."
Memória em cada canal
Os pescadores de Ilha de Maré possuem um conhecimento enciclopédico sobre a baía. Sabem que o robalo aparece nos canais de Fundão quando a lua está cheia, que a tainha migra pelos estreitos em março, que certas áreas devem ser evitadas após chuvas fortes porque o esgoto urbano contamina a água. Esse saber, transmitido oralmente por gerações, raramente aparece nos relatórios ambientais que orientam políticas públicas.
Seu Geraldo tem setenta e dois anos e perdeu a conta de quantas vezes viu a paisagem da baía mudar. "Quando eu era menino, dava para ver cardumes de sardinha do cais. Hoje você precisa ir longe, e mesmo assim não é garantia." Ele aponta para o horizonte, onde se erguem silhuetas de plataformas petrolíferas e, mais ao fundo, os contornos do Porto de Aratu, um dos maiores complexos industriais da costa brasileira. "O petróleo trouxe emprego para Salvador, mas trouxe também vazamentos, barulho e medo. A gente sente na pele quando algo está errado com a água."
Em 2019, um derramamento de óleo atingiu praias em toda a costa nordestina, incluindo trechos da baía. A comunidade de Ilha de Maré organizou mutirões de limpeza e monitoramento, mas o trauma permanece. "Foi a primeira vez que muitos jovens entenderam que nossa dependência da baía também é nossa vulnerabilidade", diz Dona Conceição, professora aposentada que coordena um projeto de educação ambiental na escola local.
Ciência e resistência
Os esforços de preservação na Baía de Todos os Santos ganharam aliados inesperados nos últimos anos. Universidades baianas intensificaram pesquisas sobre qualidade da água, biodiversidade e serviços ecossistêmicos. ONGs como o Instituto Marcos Passerini trabalham com comunidades pesqueiras para criar áreas de manejo sustentável. E um movimento crescente de turismo de base comunitária oferece alternativa econômica à pesca predatória.
Mas os desafios são imensos. O esgotamento sanitário atinge apenas metade da população da região metropolitana. A sedimentação causada pelo desmatamento no interior da Bahia entope canais e altera a salinidade. E a pressão imobiliária ameaça os últimos manguezais remanescentes com projetos de marina e condomínios de luxo.
De volta ao cais, Seu Geraldo recolhe a rede quase vazia. Apenas três peixes pequenos, insuficientes para o sustento do dia. Ele não demonstra resignação — há uma determinação quietamente feroz em seus olhos. "Enquanto eu puder remar, vou estar aqui. E vou contar para meu neto o que essa baía já foi, para que ele saiba pelo que lutar."
A maré sobe. A baía respira. E nas margens de um estuário que o mundo insiste em tratar como zona de sacrifício, histórias como a de Seu Geraldo continuam a ser escritas — uma rede lançada de cada vez.